FONTE: LGDH
Todos nós fomos profundamente abalados pela trágica notícia do falecimento, em Portugal, da nossa conterrânea Umo Cani, uma jovem grávida de 37 anos, cuja vida e a da sua bebé não puderam ser salvas, apesar das tentativas da equipa médica do Hospital Fernando Fonseca.
Esta tragédia gerou intensa comoção e indignação, sobretudo devido às declarações desumanas e imprudentes da Ministra da Saúde, Ana Paula Martins, no parlamento português.
É evidente que a morte de uma mulher grávida, ou de uma recém-nascida, num país como Portugal, deve suscitar reflexão, investigação e debate sério sobre a eficácia e a eficiência do Serviço Nacional de Saúde, um serviço que conheço e do qual sou utente.
Contudo, a dor e a revolta aumentaram quando a Ministra proferiu afirmações profundamente infelizes. No seu desastroso depoimento no Parlamento, declarou, de forma categórica: “É uma grávida que não era acompanhada até que deu entrada no Amadora-Sintra já com 38 semanas.”
Numa linha de discurso com ecos de preconceito e insensibilidade, Ana Paula Martins, que afirma ter nascido na Guiné-Bissau, acrescentou, num tom desumanizado e frio: “Posso assegurar-vos que, maioritariamente, são grávidas que nunca foram seguidas durante a gravidez, que não têm médico de família, grávidas recém-chegadas a Portugal com gravidezes adiantadas, que não têm dinheiro para ir ao privado e que, algumas vezes, nem falam português, nem estão preparadas para pedir socorro. Por vezes, nem telemóvel têm.”
Perante tamanha falta de verdade, empatia e discernimento, a Ministra perdeu a autoridade moral para continuar a exercer o cargo.
Apesar do luto e da dor, a família de Umo Cani sentiu o dever de repor a verdade, apresentando provas irrefutáveis que levaram à demissão do Conselho de Administração do Hospital Fernando Fonseca e colocaram Ana Paula Martins numa posição política insustentável.
Sobre o caso, três lições parecem-me importantes a retirar:
1. O papel da comunicação social é vital numa democracia saudável. Apesar da expulsão da RTP-África, Agência Lusa e RDP-África, e das dificuldades de ligação à internet, o jornalismo português mostrou-se digno e persistente na busca pela verdade, ouvindo familiares tanto em Portugal como o próprio marido, em Bissau.
2. A humanidade deve ser o princípio que guia o poder. Seja qual for o contexto, os valores da empatia, respeito e compaixão devem nortear todos os que servem o público. Um governante não pode agir com leviandade, nem transformar o sofrimento humano em argumento político.
3. A tragédia de Umo Cani é também um espelho da Guiné-Bissau.
Embora não tenha resultado de uma evacuação médica, este caso é um lembrete doloroso da calamitosa situação do sistema de saúde guineense, onde faltam até os recursos mais básicos, luvas, agulhas, kits de primeiros socorros, onde a morte dos parturientes é quase normalizada. É uma afronta à dignidade humana. Um Estado de direito deve garantir aos seus cidadãos o acesso pleno aos serviços sociais fundamentais, condição essencial da justiça e da igualdade.
Por fim, e não menos importante, quero reiterar as minhas mais sentidas condolências à família, especialmente ao meu primo Braima Seide, que agora carrega a dolorosa missão de cuidar, sozinho, das três crianças deixadas pela malograda.
Aproveito ainda para felicitar e agradecer os apoios da Associação dos Filhos e Amigos de Farim, pelo empenho, solidariedade e devido acompanhamento deste caso, que demonstraram o verdadeiro espírito de união e responsabilidade cívica.
Que Allah, na sua infinita bondade, lhe conceda Djannatul Firdaus.